segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Não há, ó gente, ó não...


Eu realmente pedi à mãe que me deixasse escrever ontem. Mas não pude. Não tive como. Tudo que eu começava não ia pra frente. É engraçado isso. Porque, na verdade, não preciso de um dia para me lembrar dele.
Desde que ele se foi não tem um único dia que não tenha pensado nele. Lembrado das unhas, amarelas de nicotina. Comparado às minhas unhas que, mesmo sem a ação da nicotina, se assemelham às dele, pelas habituais marcas.
Desde que ele se foi, tenho percebido o quanto minha mãe tem ficado mais parecida com ele a cada dia. Ontem mesmo notei o quanto suas pernas são parecidas, com o joelho fechando um quadrado. Nada sobrando, nenhuma curva.
Desde que ele se foi, me pego rindo das suas filosofias. A que mais me vem à memória é a de que é o clima que faz a pessoa. Calma, eu explico. É simples. Se um casal de alemães, por exemplo, for morar no Japão e tiverem um filho por lá, o filho vai ser japonês. Não só de nacionalidade, ele tentava nos convencer que vai, inclusive, ter características orientais.
Desde que ele se foi, os únicos sonhos de que me lembro quando acordo são os em que ele se faz presente.
Desde que ele se foi, lembro dele a cada discussão. Ele gostava de me provocar, só pra me ver brava. Quando eu não levava em consideração, ele perguntava: "Uai, benzinho, que que a Paulinha tem hoje?". Ou, quando a tentativa dava certo, radiante, ele exclamava: "Gosto tanto de ver a Paulinha brava!"
Desde que ele se foi, os meus cabelos insistem em me lembrarem dele, esbranquiçando. Acho que puxei isso dele, cabelos brancos antes dos 30. Na verdade já tinha desde os 16, mas agora eles resolveram tomar conta da minha cabeça. Ou então ficando cada vez mais rebeldes. Ele amava me provocar, dizendo que eu tinha uma "cachopa" de abelhas no lugar do cabelo.
Desde que ele se foi, gosto de contar dele para os outros. De como ele gostava de viver e era teimoso, só mudando os hábitos quando o médico sentenciava: ou isso, ou a morte. Foi assim com a bebida, foi assim com o cigarro. Mesmo assim, era tarde.
Desde que ele se foi, descobri em mim mesma um amor que não admitia. Música sertaneja, de raiz, especialmente se tocada numa viola. Bom demais. Aliás, desde que ele se foi, essas músicas sempre marejam os meus olhos.
Desde que ele se foi, me pego, volta e meia, cantando "Caiarolina, Caiarolina, Caiarolina de Jesus" como ele saía pela casa. Ou, às vezes, fica na minha cabeça as paródias que ele sempre entoava: "Minha filha Tatelhana que foi sempre tão bacana..."
Desde que ele se foi, como pipoca sozinha. E sempre que posso, faço a piadinha que ele adorava: "Ô Fulano, aproveita que você vai na cozinha colocar coca pra mim e põe um pouquinho pra você!"
Desde que ele se foi, lugares muito brancos me lembram dele. Não sei porque, mas me lembram.
Desde que ele se foi, quero acender uma vela. Mas, não sei o porquê, me parece que ainda não é a hora.
Desde que ele se foi, me apeguei mais à minha família. Especialmente à família do meu pai. O amava tanto e espero que ele tenha ido embora sabendo disso. Assim como quero que as pessoas da família do meu pai, com quem não tive tanto a oportunidade do convívio, saibam disso quando se forem.
Desde que ele se foi, prometi para mim mesma não brigar com minha avó. Quando vim embora tinha brigado com ele por alguma bobeira e não pedi desculpas. Espero que minha avó não se vá tão cedo mas, quando ela for, quero que tudo entre nós esteja na mais perfeita paz.
Desde que ele se foi, sempre penso no quanto fui privilegiada. Fui a última pessoa que ele tirou num amigo secreto, mesmo que tenha havido confusão na hora da entrega dos presentes.
Desde que ele se foi, tenho ficado mais tranquila em relação à morte. Sei que, quando chegar minha vez, ele vai estar me esperando. Talvez seja bobeira, mas a idéia de encontrá-lo novamente fez com que o medo que eu tenho da morte diminuísse radicalmente. Isso se torna ainda mais acalentador quando me lembro da vez que ele me disse que ia antes para preparar, no céu, a casinha com que ele tanto sonhava aqui. "Sua avó merece, vai ser do jeitinho que ela sonha", me disse.
Desde que ele se foi, procuro pedacinhos dele em cada canto. Seja no chaveiro que ele havia deixado com minha avó ou no Pinnochio de pelúcia que ele me deu, certa vez. Ou nas fotos que fuço, volta e meia.
Desde que ele se foi, coleciono lembranças. Como a dele indo jogar futebol com a gente quando já não tinha mais a rigidez das pernas e caindo, acidentalmente. Ou na vez em que eu, minha mãe e meus irmãos sofremos um acidente de carro e como ele, heróicamente, nos encontrou na estrada. Ou a mais antiga delas que tenho, quando eu era pequena e tomava banho, sozinha, na banheira, e o xampu caiu no meu olho e ele saiu correndo para me socorrer, ao ouvir o meu choro. Ou então a memória que mais gosto, de pouco tempo antes dele ir embora. Passamos a virada do ano na casa do meu tio e voltamos tarde para casa, de manhã, já. Ao chegar lá, quando ia me deitar, ouvi minha avó falando com ele, no quarto. Como fazia menos de uma semana que ele tinha passado mal no quarto, bati na porta. Ele não conseguia respirar direito. Demorou um tempo até o levarmos para o hospital, minha avó imaginava que apenas a inalação iria resolver. Enquanto voltavam à casa do meu tio para buscar o inalador, eu fiquei do lado da cama dele, o ajudando. Ele pedia para ajudá-lo a se levantar, eu ajudava. Não melhorava, deitava de novo. Nada. Pedia ajuda. E assim foi, até chegar o inalador. Como a inalação não resolveu, a vó foi levá-lo ao médico e eu, fui para o quarto, já que tinha virado a noite e estava cansada. Ele perguntou à minha avó, quando o portão da garagem estava abrindo: "Benzinho, a Paulinha não vem não? Ela é tão boazinha com a gente..." Eu fui. Ele, inclusive, quis que o acompanhasse à sala do médico, não a minha avó. Pode até parecer pouco, mas me senti muito importante aquele dia. Eu, que a vida inteira precisei do meu avô, podia ser um pouco útil, naquele momento.
É, desde que ele se foi ficou um vazio "impreenchível" em mim. E uma vontade enorme de reencontrá-lo para poder abraçar e beijar tanto, pedir desculpas e dizer, em voz alta: te amo, vozinho. Porque, desde que ele se foi, minha voz fica embargada com essa frase.

2 comentários:

Tatiana disse...

Linda essa sua homenagem para o vô nega...
Tenho certeza que o vô sabe que vc o amava... vc sempre foi a neta primogênita!!!

Beijão

Lucemary disse...

Valeu a pena nao conseguir ontem. Nao creio que voce pudesse usar palavras mais certas pra descrever como eh o mundo desde que ele se foi. Voce conseguiu dizer exatamente como me sinto... às vezes, ao olhar no espelho, me assusto ao reconhecer em mim tanto do meu cabeça branca...
eh, filha, a gente aprende.
Voce me fez chorar, mais uma vez, com a saudade na sensibilidade do seu texto.

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