sábado, 10 de abril de 2010

Uma carta é uma carta é uma carta é uma carta

Querida Graci,
há muito tempo perdi o hábito de escrever cartas na acepção exata da palavra... escrevo, sim, sempre, para as pessoas a quem amo, na forma de posts, comentários em blogs, anotações... mas não mais de cartas. E hoje senti vontade de falar com você, dá licença? Posso? Bom... nem adianta dizer que não... já tô no ritmo aqui!
Então... comecei a carta ontem (30/03), mas tive que parar na frase acima, aí me perdi, me enrolei no fio da meada, mas... tento recomeçar. Claro que poderia começar do zero, e você nem saberia, mas a água que passa hoje sob a ponte não é a mesma de ontem, se é que me entende. E o que quer que eu fosse dizer ontem, com certeza não saberei colocar hoje, mesmo que a essência se mantenha...
Pois é, senti vontade de sentar e conversar com você tomando um chimarrão (e olha que faz tempo que nem lembrava de chimarrão! E nem sei se você gosta... mas me encanta o ritual do chimarrão, e o fluir das conversas e do silêncio em volta da cuia) mas como estamos geograficamente impossibilitadas de tal, resolvo escrever – após ler seu post no “mexendo na bolsa”.
Tem uma coisa engraçada: algumas amigas de minhas filhas acabam morando no meu coração por meio delas – por tratarem-nas bem, acolhendo-as em seus corações (“quem dá uma bala a meu filho adoça minha boca”), por serem pessoas especiais ou por algum tipo misterioso de osmose: minha filha gosta tanto que também me descubro gostando. Você se encaixa em todos estes casos aí... :)
Talvez por isto a vontade de conversar – não sobre seu post, mas sobre seus sentimentos. Ou não. Ao mesmo tempo receio falar e ser mal interpretada, mas... sou meio abusada mesmo, e se tomo a liberdade de falar é porque fui aprendendo com a vida e as pessoas, e penso ser bom partilhar os tombos que levamos – talvez ajude outras pessoas a não tropeçar nos mesmos lugares... :)

Descobri cedo, antes dos nove anos, o que queria ser na vida: jornalista e mãe (quando somos tão jovens não temos a noção de quão complicado é ser bem sucedida em ambas missões... felizes aquelas mulheres que são supermães e ótimas profissionais, e ainda encontram tempo pra serem vaidosas, inteligentes e charmosas!) Claro que, aos nove anos, eu tinha certeza que seria tudo isto e muito mais (além de tudo, como meus filhos dizem, eu me acho, né???), mas o tempo passa e a gente vai descobrindo que por mais largos e rápidos que sejam nossos passos, nunca são o suficiente para nos levar onde queremos, como desejamos. E que o caminho nunca é como sonhamos: sempre surgem pedras, desvios, espinhos, atalhos, contornos. E o mais importante, pessoas. Na maior parte das vezes, elas já estavam lá: nós somos quem cruzamos seu caminho. E a partir de então elas passam a fazer parte da nossa história: seja um encontro breve em um café, seja um porre partilhado com colegas de faculdade, seja uma briga quando criança... cada uma dessas pessoas passa a fazer parte da nossa história como também passamos a integrar as suas histórias individuais. Incontáveis encontros não nos deixam marcas, não causam efeito algum, e outros marcam, indelevelmente, para sempre.
Mãe e pai são as primeiras pessoas a fazerem parte desse número limitado de pessoas que nos marcam – afinal, coisa básica, não é? Somos, de alguma maneira, a extensão viva de cada um. Trazemos em nós a carga genética e emocional de duas pessoas distintas, e putz! Temos que harmonizar isto com nosso “eu”, nossa emoção, que por vezes chega a brigar com esta herança, aí, minhamiga, é que começam as complicações.

Minha mãe, Graci, foi uma “supermãe”. Por muito tempo, enquanto meu pai estava ausente e era dependente do álcool, ela foi mãe, pai, amiga. Conversávamos muito sobre tudo, brincávamos, e claro, divergíamos em muita coisa: eu achava que o mundo todo girava ao redor do meu umbigo (meu avô materno contribuiu muito pra esta minha crença!) e ela teimava em me mostrar que não, que o mundo era muito maior e, ao contrário do que eu imaginava, não orbitava em torno de mim. Minha mãe era sempre toda carinho, toda paciência – apesar da autoridade inquestionável – e se desdobrava pra fazer da vida dos filhos uma vida melhor do que ela tivera. Cresci usando roupas de segunda mão, e nunca tive traumas por isto. Dinheiro não era algo fácil pra nós, consequentemente, brinquedos e passeios caros também não, mas mamãe sempre dava um jeito de arrumar passeios especiais, brincadeiras divertidas e não sentíamos falta de nada. E mesmo com toda a labuta de mãe, manicure, faxineira, lavadeira, babá, … ela arrumou tempo pra construir, comigo, uma relação ímpar, de amor e amizade. Sempre a admirei (era linda minha mãe! E batalhadora, e inteligente, e...), mas quando foi chegando a adolescência (ah, essa fase...) começamos a ter problemas de relacionamento, comunicação. Quando conversávamos e eu, já muito mais madura, derrubava todos seus argumentos de proibição à algo que eu queria, ela sacava o argumento inquestionável: “cala a boca e me respeita, eu sou sua mãe.” . Um dia, finalmente, disse a ela que se decidisse: ou era minha mãe, ou era minha amiga, os dois não dava – porque minhas amigas não me calavam sob o peso de sua autoridade... e assim a vida foi correndo, com muitos acertos e muito mais desacertos a partir de então – porque a admiração por ela me fazia esperar ainda mais do que ela, apenas ser humano, podia me dar. Até que um dia descobri (inclusive com ajuda de terapia) que ela, afinal, não era a perfeição em forma de gente como eu imaginava, nem meu pai sinônimo de “tudodemau”. E trazê-los para a esfera humana, como seres imperfeitos passíveis de falhas, erros, fragilidades, medos e incertezas foi, acho, uma das mais dolorosas lições da minha vida – mas uma das melhores. A partir daí passei a ter um relacionamento muito melhor com meu pai, de quem sempre fui tão distante, apesar de amá-lo infinitamente. Acho que passei a enxergá-lo com olhos menos críticos, menos cobradores, menos magoados, e assim, a aceitá-lo tal como eu, tão frágil e tão carente de amor e atenção. Também com minha mãe a relação mudou, pois passando a enxergá-la como pessoa, passei a esperar menos. E entender mais. Mas a grande moral da história é: o problema, minha amiguinha, não era meu pai. E não era minha mãe. O problema sempre fui eu. Como eu os enxergava (ou não). O que eu esperava deles e que nem sempre podiam me dar. Quando descobri que cabia a mim entender as limitações de meus pais, origem de sua história de vida; quando percebi que tudo o que eu podia mudar era o meu jeito de enxergá-los e esperar deles algo que nem sempre sabia definir; quando descobri enfim que se eu me tornasse mais flexível, mais doce, menos rancorosa, mais aberta, menos dona da verdade, poderíamos nos dar muito melhor, tudo passou realmente a ser muito melhor.

Da mesma forma, os filhos. Quando a gente tem filhos pensa que vai construir com eles uma relação muito melhor do que a que tivemos com nossos pais, que vamos ser mais amigas, mais participativas, menos egoístas, menos chantagistas, menos rígidas, enfim, quase perfeitas. Mas esquecemos que somos basicamente humanas, e assim, passíveis de erros. E quanto! A perfeição passa longe... quando percebemos que não, nossos filhos não nos acham o máximo; que sim, eles se decepcionam conosco; que nossa relação não é a utopia que construímos em pensamento, descobrimos outra lição difícil de aprender, sabe? Porque você que é mãe, e ama como eu, sabe que a nossa vida não tem mais sentido algum sem nossos filhos. E que nossa felicidade depende da felicidade deles. Mas aí começa tudo de novo, aquilo que falei antes: por mais que queiramos respeitar suas individualidades, sempre acabamos escorregando (no meu caso, por exemplo, isso acontece muito). Por vezes queremos ser liberais, e perdemos a medida, deixando tudo muito solto. Outras vezes queremos ser rígidos e acabamos magoando, invadindo, ferindo. E aí é que entra a grande questão, Gracinilda: cada filho é um ser humano ímpar. E quer algo de sua própria vida – e espera algo de mim. E nem sempre sou capaz de oferecer o que ele espera (ainda mais que são três filhos, três expectativas). E nem sempre cada um consegue o que quer, o que busca. E cada tropeço que ele dá, dói em mim. E cada vez que ele espera algo que não posso oferecer, dói em mim. Mas assim é a vida, e a gente tem que aprender com ela... com cada erro, cada acerto... lembrando que nunca depende do outro: sempre depende da gente. Ninguém é responsável por minha felicidade além de mim mesma. Ninguém pode estabelecer uma comunicação com minha mãe além de mim (mesmo que às vezes canse ser sempre eu a tentar... ela tem lá os seus motivos e limitações, e tenho que procurar entendê-los ou no mínimo, aceitá-los). Ninguém pode fazer de meus filhos meus amigos, além de mim.

Bom, querida Graci, já são onze horas da quarta-feira que antecede a páscoa, a agência tá cheia e tenho que cuidar da vida, porque é tarde, é tarde, é tarde... mas tudo o que eu queria dizer, e acabei não dizendo, é “que bom que você tem uma relação perfeita com seu pai!”. E também “procura ver com os olhos de sua mãe”. E pra terminar: “nenhuma relação nunca é fácil. Lembra que são duas pessoas, duas histórias, duas expectativas a respeito de si e do outro... sempre exige cuidado.”

Grandenorme beijabraço procê, menininha.
Me, TiaLux.
...

Um comentário:

Graci Polak disse...

Lu.

Eu li, me emocionei e estou ensaiando uma resposta desde então. Assim que eu terminar de escrever, envio.

Só não queria que vc ficasse triste por não ter resposta.

Feliz dia das mães!

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