sábado, 10 de abril de 2010

Uma carta é uma carta é uma carta é uma carta

Querida Graci,
há muito tempo perdi o hábito de escrever cartas na acepção exata da palavra... escrevo, sim, sempre, para as pessoas a quem amo, na forma de posts, comentários em blogs, anotações... mas não mais de cartas. E hoje senti vontade de falar com você, dá licença? Posso? Bom... nem adianta dizer que não... já tô no ritmo aqui!
Então... comecei a carta ontem (30/03), mas tive que parar na frase acima, aí me perdi, me enrolei no fio da meada, mas... tento recomeçar. Claro que poderia começar do zero, e você nem saberia, mas a água que passa hoje sob a ponte não é a mesma de ontem, se é que me entende. E o que quer que eu fosse dizer ontem, com certeza não saberei colocar hoje, mesmo que a essência se mantenha...
Pois é, senti vontade de sentar e conversar com você tomando um chimarrão (e olha que faz tempo que nem lembrava de chimarrão! E nem sei se você gosta... mas me encanta o ritual do chimarrão, e o fluir das conversas e do silêncio em volta da cuia) mas como estamos geograficamente impossibilitadas de tal, resolvo escrever – após ler seu post no “mexendo na bolsa”.
Tem uma coisa engraçada: algumas amigas de minhas filhas acabam morando no meu coração por meio delas – por tratarem-nas bem, acolhendo-as em seus corações (“quem dá uma bala a meu filho adoça minha boca”), por serem pessoas especiais ou por algum tipo misterioso de osmose: minha filha gosta tanto que também me descubro gostando. Você se encaixa em todos estes casos aí... :)
Talvez por isto a vontade de conversar – não sobre seu post, mas sobre seus sentimentos. Ou não. Ao mesmo tempo receio falar e ser mal interpretada, mas... sou meio abusada mesmo, e se tomo a liberdade de falar é porque fui aprendendo com a vida e as pessoas, e penso ser bom partilhar os tombos que levamos – talvez ajude outras pessoas a não tropeçar nos mesmos lugares... :)
…
Descobri cedo, antes dos nove anos, o que queria ser na vida: jornalista e mãe (quando somos tão jovens não temos a noção de quão complicado é ser bem sucedida em ambas missões... felizes aquelas mulheres que são supermães e ótimas profissionais, e ainda encontram tempo pra serem vaidosas, inteligentes e charmosas!) Claro que, aos nove anos, eu tinha certeza que seria tudo isto e muito mais (além de tudo, como meus filhos dizem, eu me acho, né???), mas o tempo passa e a gente vai descobrindo que por mais largos e rápidos que sejam nossos passos, nunca são o suficiente para nos levar onde queremos, como desejamos. E que o caminho nunca é como sonhamos: sempre surgem pedras, desvios, espinhos, atalhos, contornos. E o mais importante, pessoas. Na maior parte das vezes, elas já estavam lá: nós somos quem cruzamos seu caminho. E a partir de então elas passam a fazer parte da nossa história: seja um encontro breve em um café, seja um porre partilhado com colegas de faculdade, seja uma briga quando criança... cada uma dessas pessoas passa a fazer parte da nossa história como também passamos a integrar as suas histórias individuais. Incontáveis encontros não nos deixam marcas, não causam efeito algum, e outros marcam, indelevelmente, para sempre.
Mãe e pai são as primeiras pessoas a fazerem parte desse número limitado de pessoas que nos marcam – afinal, coisa básica, não é? Somos, de alguma maneira, a extensão viva de cada um. Trazemos em nós a carga genética e emocional de duas pessoas distintas, e putz! Temos que harmonizar isto com nosso “eu”, nossa emoção, que por vezes chega a brigar com esta herança, aí, minhamiga, é que começam as complicações.
…
Minha mãe, Graci, foi uma “supermãe”. Por muito tempo, enquanto meu pai estava ausente e era dependente do álcool, ela foi mãe, pai, amiga. Conversávamos muito sobre tudo, brincávamos, e claro, divergíamos em muita coisa: eu achava que o mundo todo girava ao redor do meu umbigo (meu avô materno contribuiu muito pra esta minha crença!) e ela teimava em me mostrar que não, que o mundo era muito maior e, ao contrário do que eu imaginava, não orbitava em torno de mim. Minha mãe era sempre toda carinho, toda paciência – apesar da autoridade inquestionável – e se desdobrava pra fazer da vida dos filhos uma vida melhor do que ela tivera. Cresci usando roupas de segunda mão, e nunca tive traumas por isto. Dinheiro não era algo fácil pra nós, consequentemente, brinquedos e passeios caros também não, mas mamãe sempre dava um jeito de arrumar passeios especiais, brincadeiras divertidas e não sentíamos falta de nada. E mesmo com toda a labuta de mãe, manicure, faxineira, lavadeira, babá, … ela arrumou tempo pra construir, comigo, uma relação ímpar, de amor e amizade. Sempre a admirei (era linda minha mãe! E batalhadora, e inteligente, e...), mas quando foi chegando a adolescência (ah, essa fase...) começamos a ter problemas de relacionamento, comunicação. Quando conversávamos e eu, já muito mais madura, derrubava todos seus argumentos de proibição à algo que eu queria, ela sacava o argumento inquestionável: “cala a boca e me respeita, eu sou sua mãe.” . Um dia, finalmente, disse a ela que se decidisse: ou era minha mãe, ou era minha amiga, os dois não dava – porque minhas amigas não me calavam sob o peso de sua autoridade... e assim a vida foi correndo, com muitos acertos e muito mais desacertos a partir de então – porque a admiração por ela me fazia esperar ainda mais do que ela, apenas ser humano, podia me dar. Até que um dia descobri (inclusive com ajuda de terapia) que ela, afinal, não era a perfeição em forma de gente como eu imaginava, nem meu pai sinônimo de “tudodemau”. E trazê-los para a esfera humana, como seres imperfeitos passíveis de falhas, erros, fragilidades, medos e incertezas foi, acho, uma das mais dolorosas lições da minha vida – mas uma das melhores. A partir daí passei a ter um relacionamento muito melhor com meu pai, de quem sempre fui tão distante, apesar de amá-lo infinitamente. Acho que passei a enxergá-lo com olhos menos críticos, menos cobradores, menos magoados, e assim, a aceitá-lo tal como eu, tão frágil e tão carente de amor e atenção. Também com minha mãe a relação mudou, pois passando a enxergá-la como pessoa, passei a esperar menos. E entender mais. Mas a grande moral da história é: o problema, minha amiguinha, não era meu pai. E não era minha mãe. O problema sempre fui eu. Como eu os enxergava (ou não). O que eu esperava deles e que nem sempre podiam me dar. Quando descobri que cabia a mim entender as limitações de meus pais, origem de sua história de vida; quando percebi que tudo o que eu podia mudar era o meu jeito de enxergá-los e esperar deles algo que nem sempre sabia definir; quando descobri enfim que se eu me tornasse mais flexível, mais doce, menos rancorosa, mais aberta, menos dona da verdade, poderíamos nos dar muito melhor, tudo passou realmente a ser muito melhor.
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Da mesma forma, os filhos. Quando a gente tem filhos pensa que vai construir com eles uma relação muito melhor do que a que tivemos com nossos pais, que vamos ser mais amigas, mais participativas, menos egoístas, menos chantagistas, menos rígidas, enfim, quase perfeitas. Mas esquecemos que somos basicamente humanas, e assim, passíveis de erros. E quanto! A perfeição passa longe... quando percebemos que não, nossos filhos não nos acham o máximo; que sim, eles se decepcionam conosco; que nossa relação não é a utopia que construímos em pensamento, descobrimos outra lição difícil de aprender, sabe? Porque você que é mãe, e ama como eu, sabe que a nossa vida não tem mais sentido algum sem nossos filhos. E que nossa felicidade depende da felicidade deles. Mas aí começa tudo de novo, aquilo que falei antes: por mais que queiramos respeitar suas individualidades, sempre acabamos escorregando (no meu caso, por exemplo, isso acontece muito). Por vezes queremos ser liberais, e perdemos a medida, deixando tudo muito solto. Outras vezes queremos ser rígidos e acabamos magoando, invadindo, ferindo. E aí é que entra a grande questão, Gracinilda: cada filho é um ser humano ímpar. E quer algo de sua própria vida – e espera algo de mim. E nem sempre sou capaz de oferecer o que ele espera (ainda mais que são três filhos, três expectativas). E nem sempre cada um consegue o que quer, o que busca. E cada tropeço que ele dá, dói em mim. E cada vez que ele espera algo que não posso oferecer, dói em mim. Mas assim é a vida, e a gente tem que aprender com ela... com cada erro, cada acerto... lembrando que nunca depende do outro: sempre depende da gente. Ninguém é responsável por minha felicidade além de mim mesma. Ninguém pode estabelecer uma comunicação com minha mãe além de mim (mesmo que às vezes canse ser sempre eu a tentar... ela tem lá os seus motivos e limitações, e tenho que procurar entendê-los ou no mínimo, aceitá-los). Ninguém pode fazer de meus filhos meus amigos, além de mim.
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Bom, querida Graci, já são onze horas da quarta-feira que antecede a páscoa, a agência tá cheia e tenho que cuidar da vida, porque é tarde, é tarde, é tarde... mas tudo o que eu queria dizer, e acabei não dizendo, é “que bom que você tem uma relação perfeita com seu pai!”. E também “procura ver com os olhos de sua mãe”. E pra terminar: “nenhuma relação nunca é fácil. Lembra que são duas pessoas, duas histórias, duas expectativas a respeito de si e do outro... sempre exige cuidado.”
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Grandenorme beijabraço procê, menininha.
Me, TiaLux.
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domingo, 28 de março de 2010

"Você é exatamente igual ao resto do mundo"

Hoje é um dia comum, domingo de sol e chuva em Salvador.
Angela saiu pra casa de uma amiga, Ramon foi fazer prova.
Raro momento comigo mesma, em frente ao pc, e sem muita vontade de escrever, mas me sentindo na obrigação de postar algo, afinal, não é? Faz tanto tempo. Aí me lembro da pequenina conversa com meu chefe esta semana, e me animo a escrever sobre fé. Sobre Deus. Sobre como Deus é muito bom comigo, e como colocou no meu caminho pessoas especiais que fazem toda a diferença, e desta forma, minha vida ter sentido.
...
Aí, por motivos que não vem ao caso, elejo uma dessas pessoas pra falar aqui.
Na verdade, é uma pessoa comum. Bem comum mesmo, cheia de medos e dúvidas e incertezas e tristezas insondáveis como qualquer outra pessoa. Ops, peraí. Não tão comum assim: ela tem um senso crítico muito aguçado, uma inteligência de causar inveja, tem a sensibilidade à flor da pele, e como diria Drummond, "apenas duas mãos e o sentimento do mundo".
Lembro-me de quando ela era pequenina, e seu sorriso já prenunciava a luz que traz hoje: quando sorria, não só seus lábios se abriam a mostrar dentes lindos - ela era toda sorrisos, os olhos, a bochecha, o corpo todo sorria e nos inundava de um sentimento que ainda hoje não sei explicar. De pequena já trazia em si um coração que não lhe cabia: embora menor, aos dois anos bateu em um coleguinha que fez a irmã mais velha chorar. Não podia ver ninguém triste, que já se punha a escalar o tristonho com mãos e pernas incontáveis, e ao chegar à altura do rosto, o segurava com as mãos, babava-o de beijos fartos, coroados por abraços quentes de seus bracinhos curtos. Ainda menina era a companheira e pau pra toda obra da irmã, que muitas vezes abusava de seu amor e generosidade: "se você contar pra mãe, maninha, ela vai me bater...". E ela se calava, e a vida continuava sem dramas, sem traumas, suas tramas.
Ela foi protagonista de infinitas histórias que hoje, todos adultos, nos matam de rir ao recordar: o sono escondido sob a cama da avó, enquanto todos desesperados procuravam por ela na vizinhança e no quintal cheio de buracos e armadilhas pra uma criança de ano e pouco; o soco inesperado nos órgãos genitais do pobre guarda da cinderela que a quis barrar na oitava vez que ia pro colo da princesa; lembrar a pinta na bunda da mãe ao ver uma bruxinha na feirinha em Curitiba; elogiar a fanta do almoço de domingo; sair sangrando no colo da mãe quando bateu pela trocentésima vez a cabeça no mesmo lugar... e tantas e tantas outras histórias!
Ela aprendeu a ler sozinha aos cinco anos, enquanto a mãe não se tocava de seu progresso na escola, cu-ti-sa-nol. Ela tinha a inocência e a ingenuidade deliciosas que a faziam tão especial "você tá nervosa, mãe?" ... grampeador na parede, "agora não, filha.".
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Mas como a Graci tá descobrindo, e um dia eu também descobri, os dias passam. Transformam-se em meses, anos, e os filhos crescem. Em determinado momento, pra eles, é muito importante sua posição no grupo e ser respeitada por ele. Aí, um dia, sua mãe faz algo que acha que é pra protegê-la, mas que a magoa muito - ainda que a amiga estivesse errada. Depois, a tia coroa esta história de maneira espetacular. E ela perde a amiga, e deve ter sido horrível pra ela. Mas é mais uma história pra contar. Como quando se mudaram, ela e a mãe, pra uma "ilha paradisíaca, a quarenta minutos de Salvador". Aquela menina, sempre tímida e insegura, desabrochou. Explodiu em cores e nuances e amigos. Bob Pop.
E sempre a melhor aluna, a mais inteligente. Sem ter que fazer força pra isso. Professores ferrando a sala toda pra ferra-la também, o que acontece? É a única que tira nota azul. Isto não me surpreende, desde pequena eu amava reuniões de pais e mestres, para ela e a irmã eram só elogios, e esta mãe que é pouco coruja inflava feito sapo cururu e saia com aquele sorriso que dizia: "Minha filha!" "Minha filha!" enquanto pais não tão sortudos suspiravam por não terem filhos assim... :)
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Na televisão, um programa de combinação. Quem descobrir os olhos, nariz, boca e cabelos escolhidos para o boneco pela produção, ganha uma moto. E caracas! Acontece de primeira! Mãe e filha na sala.
"Mãe, sabe qual a possibilidade de que isto aconteça assim, de primeira???"
"Não, filha."
Papel e lápis, algumas continhas rápidas, e uma resposta certeira, que agora me foge à memória. Você conhece alguém que goste disso? Que se divirta com isso? Pois eu conheço, e me divirto junto. E fez falta não ter prestado atenção, no último concurso que fiz, quatro questões sobre o mesmo assunto. E errei todas.
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Dividindo um apartamento em frente ao mar, dormindo ao som das ondas. A mãe, deitada na rede na varanda do quarto, no andar de cima. A filha deitada no colchão na varanda da sala, abaixo. Olhando estrelas, conversando sobre constelações, sobre a vida, sobre o mar, sobre amar, sobre viver.
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Domingos de lancha e ferry e shopping em Salvador. Lanche, cinema, sorvete.
"Meu queixo está sujo como o seu, filha?"
"Mãe!!!!!"
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Eu podia continuar falando e falando e falando.
Falando de como ela é iridescente e de como faz diferença na vida de algumas pessoas.
De como ela não é nem um pouco igual ao resto do mundo.
E de como ela faz o mundo melhor por ser como ela é.
De que não, ela não vai conseguir salvar o mundo sozinha, nem Jesus, ou Gandhi, ou Madre Tereza conseguiram.
De que ela é especial justamente por seus defeitos e qualidades. E por ter consciência dos primeiros, e tentar melhorar sempre.
De que ela é insubstituível no coração e na vida de quem a ama.
De como ela faz toda a diferença na minha vida, e de como sou uma pessoa muito melhor por ter tido o privilégio de partilhar o caminho com ela.
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Mas não vou falar nada disso.
Vou terminar com Quintana e Drummond, que amo.
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SIMULTANEIDADE
Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo!
Eu creio em Deus! Deus é um absurdo!
Eu vou me matar! Eu quero viver!
Você é louco?- Não, sou poeta. Mário Quintana
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"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro de poemas, o cheiro que tinha um dia o próprio vento..." Mário Quintana
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"Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar." Drummond
"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo." Drummond

terça-feira, 16 de março de 2010

Estou lendo...

... "Outras Palavras", de Lya Luft.
Que sou fã confessa dela, é fato. Os motivos, deixo pra outra hora. Agora peço licença e transcrevo um texto que amei, dentre tantos. Mas hoje este é o que fala mais fundo ao meu coração, e quero partilhar.

*****

Família:
conflito e transformação.

Em nossas opções se revela o que pensamos merecer: relação amorosa, trabalho, prazer, tipo de vida, família que constituímos, como nos cuidamos ou como nos destruimos.
Em fases diversas faríamos escolhas diferentes: alguns valores mudam junto conosco.
A família, esse chão sobre o qual caminharemos pelo resto da vida, mais esburacado ou mais sólido, mais ensolarado ou mais sombrio, não é uma escolha nossa.
Nascemos nesse grupo, com o qual eventualmente nem gostaríamos de conviver. Por ele somos parcialmente moldados, condenados ou salvos. Dele nos ficarão memórias ternas, o necessário otimismo e segurança, ou autoestima baixa e processos destrutivos.
Esse pequeno território é nosso campo de treinamento como seres humanos, num misto de amor e guerra: embora sendo do mesmo sangue, pais, irmãos e filhos não são necessariamente da mesma raça espiritual.
Para indagar o que seria uma família positiva (não gosto dos termos "normal" nem "saudável"), deixemos de lado os estereótipos da família sem conflito. Vamos esquecer a mãe vitimizada que gera culpa e raiva, o pai provedor tantas vezes sem espaço para ter, ele próprio, carinho e escuta, e os filhos talentosos, gentis e equilibrados.
Mesmo sem nada disso, a boa família é possível.
Como a definir? Como aquela que, mesmo se não nos compreende e até desaprova alguma escolha nossa, nos faz sentir: lá sou aceito e respeitado, lá me querem, lá tenho um lugar.
Idealização? Não creio. Fantasia é esperar que pais, irmãos e também filhos nos amem sem condições, nos aprovem integralmente, cuidem de nós a qualquer preço e queiram antes de tudo o nosso bem. A mãe não é invariavelmente uma santa, o pai um varão exemplar, o filho um cidadão estabelecido e sempre a postos quando os adultos esperam respeito e precisam d ecarinho.
Pais e mães são apenas humanos. Filhos são apenas humanos.
Crescendo saudavelmente, os filhos serão menos centrados nos pais do que em sua própria vida, e isso é bom: não é desamor, é amadurecimento e autonomia. A nós adultos cabe ter para eles ombro ou colo quando precisarem, sem estorvar quando buscam seus caminhos, eventuamente até controlando nossa angústia pelo destino deles.
Vale mencionar o que desejamos para eles: que sejam ricos, poderosos, belos e admirados, ou simplesmente felizes? Que conquistem a glória que nós ambicionamos, ou que sigam seu próprio caminho?
Nenhuma relação subsiste - a não ser doente - sem conflitos na busca dos espaços individuais. A família atual tem boas chances de transformação positiva. Naõ precisamos ficar juntos por preconceito, acomodação ou culpa, mas porque nos faz bem, porque nos torna seres humanos melhores, campazes de ter - e dar - mais alegria.
Mesmo que nos separemos, ou porque filhos vivem suas vidas ou porque às vezes pais se separam (sem deixar de ser pais e mães daqueles filhos), alguma forma de afeto pode persistir, e expandir-se como respeito e aceitação.
Assisti recentemente, com grande tristeza mas admiração ainda maior, pai e mãe, separados mas amigos, despedindo-se de uma filha muitíssimo amada, morta em plena juventude.
Sofriam uma perda inimaginável, que lembrava a todos nós, seus amigos, a nossa própria assustadora fragilidade. Nunca esquecerei a postura desses pais no sofrimento, os cuidados um com o outro, a inclusão de amigos e novos cônjuges no seu momento trágico, assim prestando uma homenagem ainda mais especial à filha que perdiam.
Seria comum essa transformação e multiplicação de afetos, na dor e na alegria, se em lugar de egoístas e confusos, fôssemos maduros e equilibrados.
Mas nesse caso, escritores, psiquiatras, antropólogos, sociólogos e tantos outros profissionais da alma humana ficariam privados de uma intrigante fonte de trabalho e reflexão. (Lya Luft)


*****

segunda-feira, 8 de março de 2010

A nós



Dia Internacional da Mulher. Mais um. De novo. Hoje os homens fingiram que sempre nos tratam bem, lembraram que somos importantes em suas vidas e nos parabenizaram. Ganhamos rosas, bombons, elogios. Sorrisos.
Amanhã, novamente, vamos acordar com a impaciência de quem não sabe preparar o próprio café. Com o guarda-roupa todo e nada para usar. Com o chefe nervoso por qualquer motivo e com o colega da mesa ao lado sem nem lembrar de nos dar bom dia. Porque dia da mulher é só um. Ainda bem.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Bipolar

Eu queria o mundo, mas tenho medo da saudade. O que conheço é tão pouco e a falta que me faz, gigantesca. Muitas vezes penso que não me cabe.
Sinto saudades das cores, dos cheiros, dos sabores. Das pessoas, dos risos, dos momentos. Dos sons. Dos sotaques. Dos olhares.
Para cada quilômetro andado, mil saudades novas. É tanta que não sei bem como lidar com ela. Quero ir para frente, conhecer mais, ver mais. Mas também quero voltar, visitar outra vez, ver de novo.
Queria ser duas. Ou mais. Com destinos difusos, confusos, oblíquos. Sem caminho certo, mas sempre no caminho. Feliz.

"A gente só leva da vida a vida que a gente leva." (Tom Jobim)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Novela mexicana




Ontem, tarde da noite. Estávamos Cintia e eu em casa, eu no quarto, ao telefone, e a Cintia assistindo tv. De repente a Jane chega, cara de bêbada. Continuo no telefone. Ouço choros no quarto ao lado. A Cintia vem e me pergunta se tenho remédio para enjoo. Jane passou da conta. Mostro onde está, ela leva para Jane. O choro continua.
Desligo e vou ao quarto dela, para entender o que está acontecendo.
- Jane, o que você bebeu?
- Caipirinha e cerveja.
- Ela até vomitou, Paula.
Não via a Jane desde quinta-feira passada, exatamente uma semana atrás. Ela não apareceu em casa durante toda a semana, acredito que pelo pedido que lhe fiz.
Parênteses para explicar.
Aconteceram algumas coisas, nos últimos meses, no mínimo curiosas lá em casa. E eu e a Cintia observamos que a responsável era a Jane. Então, pedi que ela procurasse outro lugar para morar. É claro que a situação não ficou das melhores, mas ela teve a reação mais politicamente planejada do mundo. Tanto que, no outro dia, me chamou para ir para a casa dela no final de semana. Enfim...
Ontem, depois de uma semana sem aparecer e com o celular desligado, a Jane chegou, naquele estado. Sentei na cama dela e a abracei, e vi a cena mais... forçada que já havia visto.
A mão da Jane morreu quando ela tinha 13 anos. Uma vez contei que a vi chorando de saudade da mãe. Até aí, normal.
Mas ontem foi forçado. Sério.
Ela chorava, quase gritando. "Paula, traz a minha mãe de volta. Eu deixo você levar a Isa, mas traz ela de volta".
Parênteses de novo. Isa é a irmã mais nova dela. A irmã que veio do segundo casamento do pai, depois que a mãe morreu. A irmã que ela cria como se fosse filha, apesar de morar com a mãe, em São Paulo, e que ela canta, aos quatro ventos que é a cara e o jeito dela. Que tem tudo dela e só dela. Mais uma vez, enfim...
Eu pedia para ela se ajeitar, mas ela não saia do meu colo. Dizia para levantar e ela dizia 'não'. E continuava chorando e quase gritando. Perguntava se queria outro remédio, um calmante, água... 'não', e continuava a cena.
Ficou assim até a Cintia me ajudar a levantá-la de cima de mim e colocá-la direito na cama. Em menos de cinco minutos parou de chorar.
Aí me pego pensando... como pode, gente, ser assim?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

E você, por que não se mataria?

Volta do almoço, paramos, eu e Lucas, meu amigo, para tomar um sorvete na padaria.
- Paula, por que você não se mataria?
Cara de espanto. A pergunta não tinha absolutamente nada relacionado com a conversa.
- Ué, porque eu gosto da minha vida...
- Ah, não, sem clichês. Por que?
- Meu, porque eu tenho medo de morrer. Porque eu quero viver mais de 100 anos e não tenho porque acabar com ela antes. E porque eu gosto da minha vida, ora bolas.
- Tá, mas sem o usual, por que você não se mataria?
- Lucas, por um monte de coisas. Que coisa!
- Eu não me mataria por sorvete, por exemplo. Se eu morresse eu não ia mais poder sentir o gosto de sorvete. E é tão bom!
...
Ok, Lucas, eu concordo!
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